sábado, 8 de março de 2008

bacias e comunidades

Quando estava sendo elaborado o Plano Diretor de Itaúna, em 2006, fiquei aguardando a efetivação do caráter "participativo" alardeado pelo poder público e cheguei a levantar o tema em sala de aula. Nesse meio tempo, fiz algumas reflexões. O texto abaixo, desta época, aborda um dos aspectos que me pareceram falhos na proposta que vinha sendo elaborada.


Quando da elaboração do Plano Diretor de Itaúna, estranhei a divisão do território itaunense em bacias hidrográficas. Sei que essa classificação é tecnicamente defensável, mas acho difícil reconhecer a complexidade da cidade, coisa fundamental para o desenvolvimento das ações de planejamento, por suas bacias hidrográficas, mesmo sendo este um modo de descrever o seu sitio.
Reconheço melhor Itaúna, quando se fala em Santanense, Olaria, Morro do Engenho, Angu Seco, Brejo Alegre, Córrego do Soldado, Calambau...
Porque será? Certamente porque, como disse Milton Santos, “o espaço se define como um conjunto de formas representativas de relações sociais do passado e do presente, por uma estrutura representada por relações sociais que estão acontecendo diante dos nossos olhos...” Ou seja, a forma do espaço não é só a forma geográfica, mas aquela que a sociedade constrói a partir das suas relações.

Desde que os homens ocuparam a Terra, o espaço físico perdeu a neutralidade da natureza original e ganhou sentidos diversos com o seu olhar. Por outro lado, se a Ciência pode e deve repartir e fragmentar para melhor conhecer, gerando critérios importantes, não é prudente que se simplifique as diferenças sociais e as aspirações comunitárias só porque moramos sob a influência de um mesmo rio. Basta pensar no que ocorreria se considerássemos os povos da Amazônia com todas as suas particularidades, simples e genericamente como “índios”. Guardadas as devidas proporções, é o que acontece quando nos consideram “habitantes das bacias”: transformam-nos em meros números de estatísticas.

Uma das conseqüências que reputo a essa organização impessoal, que divide uma sociedade humana em função dos acidentes geográficos, foi a baixíssima participação popular nas plenárias realizadas pela prefeitura itaunense. Ora, ninguém se identifica com uma bacia e sim com uma comunidade.

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